Antes de qualquer discussão sobre nomenclaturas, existe uma questão básica que parece estar sendo ignorada: Mulher é mulher, seja ela cis ou trans. A Comissão da Mulher não é a comissão da mulher cis, é a comissão das mulheres. De todas.
A comissão existe para discutir, defender e propor políticas voltadas às mulheres na sociedade. Todas elas. Sejam cis, sejam trans. Não faz sentido transformar esse espaço em um lugar de exclusão, como se houvesse um tipo legítimo de mulher e outro que precisasse ficar do lado de fora.
A delegada problematiza ainda: e se fosse uma pauta criada exclusivamente para tratar das questões das mulheres trans? Nesse caso, diz ela, não poderia ser uma mulher cis representando. E, a partir disso, conclui que também não poderia ser uma mulher trans na Comissão da Mulher. Uma comparação bastante desonesta, uma vez que estamos falando da Comissão da Mulher, de todas as mulheres. Inclusive, faria total sentido existirem pautas específicas para pessoas trans dentro desse debate, porque mulheres trans sofrem preconceito por serem trans e, por isso, faria sentido que fossem representadas por uma mulher trans, por seu lugar de fala na violência sofrida pela transexualidade. Já mulheres cis sofrem por serem mulheres, mas não sofrem por serem cis, e não faria sentido algum existir uma pauta específica para mulheres cis, justamente porque o preconceito que elas sofrem não é por serem cis, mas simplesmente por serem mulheres.
São experiências diferentes em alguns aspectos, mas no fundo o ponto é o mesmo: todas enfrentam algum tipo de violência, rejeição ou tentativa de silenciamento por simplesmente existirem como mulheres em uma sociedade que ainda tem dificuldade em aceitar isso. Por isso mesmo, o caminho lógico deveria ser o da união, não o da segregação. Até o homem trans sofre violência por ser biologicamente do sexo feminino. Mas essa delegada abraçaria essa causa e o acolheria pelo simples fato de esse homem trans possuir um útero? Em que limbo ela o colocaria?
Então, a questão é muito simples: a Comissão da Mulher foi instaurada para defender todas as mulheres ou para começar a escolher quais mulheres são consideradas mulheres o suficiente para estarem ali?
Eu olho para Erika Hilton e vejo uma mulher. Uma mulher que fala como mulher, se apresenta socialmente como mulher, se posiciona como mulher e defende pautas relacionadas às mulheres.
Sou uma mulher cis e não me incomoda absolutamente nada ser representada por ela. Sinceramente, o fato de ela ter útero ou não, vagina ou não, não muda absolutamente nada para mim. Não estou na intimidade dela. Isso não me diz respeito. O que me interessa é o papel que ela ocupa na sociedade e o trabalho político que ela realiza.
Mulheres trans também sofrem violência. Também são alvo de preconceito, exclusão e agressões. Muitas vezes não são aceitas como mulheres e, ao mesmo tempo, nunca serão reconhecidas como os “homens” que os transfóbicos dizem que elas são. Vivem nesse limbo social que a própria sociedade criou.
Por isso, quando ouço esse tipo de discurso, pra mim soa muito mais como preconceito disfarçado de opinião. Eu simplesmente não consigo olhar para Erika Hilton e ver um homem. E também não consigo sentir que ela é menos mulher do que eu. Ser ou não o tipo de pessoa com quem alguém se relacionaria afetivamente é outra conversa completamente diferente. Isso é questão de atração, gosto, relação interpessoal. Não tem nada a ver com respeito à sua identidade de gênero e em como ela se apresenta para a sociedade.
Uma vez que a Comissão da Mulher existe para defender todas mulheres, ela poderia ser presidida por uma mulher cis ou por uma mulher trans. O critério deve ser o compromisso com a pauta das mulheres, não uma disputa sobre quem tem autorização para ser considerada mulher.
No fundo, o discurso evidencua algo bastante claro: há quem simplesmente não enxergue Erika Hilton como mulher. E, infelizmente, isso ainda reflete o pensamento de uma parte grande da sociedade, e é justamente por isso que ela deve estar exatamente onde ela está, porque é muito simples: ela fala como uma mulher, se porta como uma mulher, se importa com as mulheres. Ela é uma mulher.
E, sinceramente, o que está debaixo da saia dela não me interessa. A Comissão da Mulher não existe para fiscalizar corpos. Existe para defender mulheres. Todas nós.