quarta-feira, 19 de outubro de 2011

À ética

Por que me colocas tu à prova
tu quem tanto defendo?
Quem és o oposto de ti
tu que a mim à entidade metafísica
do sobrenatural equivale?
Tu, que em minha Carola resides
e não me abandonas
e estará ali para apontar-me o indicador
ao ver-me cair em tua ardilosa armadilha.
Que queres tu provar ao testar meus limites
e encontrar minhas falhas
e me ver negar tudo quanto sempre preguei?
Não aos céus, mas a mim e aos meus.
De ti sabes que não posso fugir
e queres não que eu apenas seja forte
mas que eu não tenha um calcanhar de Aquiles.
Saibas tu que não desistirei
em ti acredito e por ti enfrento
posto que tu insistes em mim desacreditar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Ser Professor é ter amor, é ser ator

Há um tipo de profissional sem o qual não seria possível o aparecimento dos demais. Essa figura, essencial para a sociedade, é conhecida pelo nome de Professor. Sem Professor não haveria médicos, físicos ou matemáticos, não existiriam biólogos ou veterinários, sem Professor não existiriam sequer professores; nesse ponto chegamos a um paradoxo sobre o qual não pretendo iniciar uma discussão.


Mas não é fundamental a presença de um professor para aprender a ser malandro, conhecer a Lei de Gérson em todas as suas variações, bem como saber quando e como aplicá-la com maestria; para a arte de ser malandro o que não falta é mão de obra autodidata. Deve ser por isso que a beleza da profissão exercida pelos professores não é reconhecida em terras tupiniquins. Definitivamente, ser Professor é, acima de tudo, ter muito amor.


Ser Professor, o melhor professor, é, em sua máxima excelência, ser um artista, afinal, ensinar é uma arte, a arte de ser ator. É ser capaz de fazer o impossível para trazer ao plano físico as almas de uma turma de alunos matutinos que ainda encontram-se perdidas no reino de Morpheus e impedir que o pó de Sandman atinja os olhos daqueles alunos que batalharam o dia inteiro e sobreviveram para as aulas noturnas, quando a voz do professor parece um som distante vindo de algum plano etéreo. É iniciar uma batalha épica contra Chronos para fazer o conteúdo de uma vida caber em apenas cinquenta minutos.


Ser Professor é incorporar um personagem a cada dia, a cada aula. É passar pela porta da sala e deixar do lado de fora aquela briga com a mãe, com o pai, com a namorada, com o marido, com a filha, com o cachorro... é, por um período que reside entre o bater de um sinal e o soar de outro, esquecer que todos os problemas existem e conseguir sorrir para os alunos, conquistá-los a cada minuto e neles despertar a admiração pela figura que se articula em frente ao quadro negro.


A ausência do Professor, muito mais do que impedir a existência de outras belas profissões, impede a propagação de valores humanos. Sem Professor, não há educação, não há esperança, não há a possibilidade de qualquer mudança. A você, professor ou futuro professor, parabéns pela escolha, pela luta de cada dia, parabéns por não desistir, parabéns por todo esse amor.


Essa é uma singela homenagem aos meus professores do cursinho, ex professores da faculdade, amigos professores e futuros professores. A vocês, desejo um merecido Feliz dia dos Professores.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Se as horas fossem longas

Se as horas fossem longas, eu leria três livros por dia, pintaria as unhas seis vezes por semana e correria pelas manhãs. Se as horas fossem longas, eu me encantaria todo dia com o pôr do sol, apreciaria a noite e só dormiria quando o sono viesse. Se as horas fossem longas, eu esperaria. Se as horas fossem longas, eu não teria medo e andaria calmamente às tardes. Se as horas fossem longas, você não apareceria na incerteza do momento. Se as horas fossem longas, cada minuto não consumiria tudo e tanto que tento conter. Se as horas fossem longas, eu conteria. Se as horas fossem longas, esse texto não seria prosa, nasceria poesia.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Setembrite

Há algum tempo os vestibulandos haviam sido avisados sobre a febre denominada Setembrite, que pode acometer-los no mês de setembro e, na transição para outubro, transforma-se em Outubrite. Não há registros de Novembrite, os sintomas de esquizofrenia e loucura provenientes da febre acontecem somente até a outubrite; ouve-se gritos estranhos ecoando pelos corredores, surtos psicóticos, convulsões e risos desenfreados; mas as estatísticas apontam que, ao passar pela Outubrite e sobreviver aos surtos e pressões psicológicas, o aluno provou-se forte e capaz de enfrentar as tropas de choque que o aguardam no fim da linha.


Houve o caso de uma garota que acreditou que a Setembrite não passava de uma lenda, afinal, setembro já havia chegado e ela não sentira nenhum dos sintomas previamente descritos. Ela então preparou sua mala e se dirigiu ao local de prova com horas de antecedência. Ali armou acampamento: da sua mochila saíram armários, roupas, sapatos e, no banheiro, arrumou os shampoos e toalhas; ela inclusive arrumou a mesa para o almoço; sentou-se na cadeira e esperou; olhou no relógio e decidiu sair para voltar mais tarde, pegou um ônibus e foi para casa.


Ao desembarcar, percebeu que já era hora de voltar para a prova e se deu conta que não conseguiria chegar a tempo; pediu carona para seu pai, mas o carro estava quebrado. O desespero tomou conta da situação, o celular tocou, ela olhou no relógio e eram cinco e meia da manhã, levantou-se e começou a se preparar para a primeira aula de história. "Setembrite é lenda urbana", pensou a garota enquanto escovava os dentes.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

As coisas que o tempo diz

Percebo estar exageradamente preocupada com a minha idade. Preocupação essa que não reflete apenas sobre o aspecto físico, aquele medo dos inevitáveis efeitos da lei da gravidade sobre as belas curvas. Não, a crise atinge níveis mais profundos, relacionados à percepção de que o tempo avança e a vida parece ter ficado presa na ilusão da flor dos vinte anos.


Eu me formei, sou graduada. “Em que você se formou?” me perguntam. Minha formação é de Bacharel em Artes Visuais, não lembro os motivos exatos que me levaram a escolher esse curso, a verdade é que sempre tive certo apreço pela arte, mas foi o excesso de subjetividade nela contida que fez com que minha racionalidade com ela entrasse em desacordo.


“Você se arrepende de ter feito essa faculdade?” Não, não me arrependo. Eu não saberia que não encontraria o que procurava não tivesse feito eu a busca. Ademais, bagagem de conhecimento nunca entra em excesso. A maturidade que tenho hoje não é aquela de dez anos atrás, tampouco será a mesma que terei após começar e concluir outra graduação. “Ah, mas você não tem medo de descobrir de novo que esse curso não é o que você quer?” Medo? É claro que eu tenho medo, mas eu se eu não o fizer, ficarei na eterna dúvida. O medo deve servir para manter-nos prudentes, não estagnados; e como já afirmado anteriormente, não há aqui mesma menina que fez uma escolha anos atrás, essa vida agora é outra e minhas escolhas são sustentadas por uma base mais solidificada.


A crise que me acomete não é pelas escolhas que fiz ou deixei de fazer, mas o tempo que elas tomaram. Perdi-me no meio do caminho, passei longos anos sem um verdadeiro objetivo; encontrei a fotografia, apaixonei-me por ela e isso me proporcionou momentos únicos, incríveis e experiências inesquecíveis para toda a vida. Mas ainda faltava algo, um vazio não preenchido... eu quero outra faculdade, eu quero a USP.


Lembrei-me da literatura, e do professor que me despertou por ela o interesse: Fernando Teixeira, ou FT, como era carinhosamente chamado. Professor já falecido que deixou um buraco no mundo e um legado sem precedentes e, em mim, a semente que me faz buscar agora o caminho das letras.


Medo? Eu tenho medo. O caminho ainda não é claro, pensamentos despencam como uma avalanche de dúvidas e ideias. Vejo, no cursinho, professores da minha idade ou até mais novos, pessoas que se formaram quase no mesmo período que eu me formei, e penso que eu poderia estar lá, mas não estou; não estou porque me perdi no meio da jornada, andei por caminhos tortos até encontrar aquilo que pode enfim tirar-me da escuridão. Mas na escuridão em que me encontro, há um foco de luz: aprender, relembrar e reaprender coisas que há anos não tinha contato, além de reencontrar professores que me lecionaram há dez anos, me dá a força que me impulsiona para nunca deixar de procurar as respostas que nunca encontrei.