O namoro do século XXI vem, obrigatoriamente, de uma relação que começou descompromissada; amar é um efeito colateral deste primeiro passo. Apaixonar-se antes de dar os primeiros pegas, é brega. Primeiro fica-se a fim e, após sondar o território, começa-se a flertar e a esperar respostas. Caso sejam positivas, basta então começar a investir diretamente para aproveitar o bem bom. Demonstrar qualquer sinal de sentimentos mais profundos é proibido, declarações de amor e bem querer estão fora de moda. Mostrar-se desencanado, ainda que não esteja de fato, é essencial; manter a relação enrolada sem definir para que lado vai é o caminho para um namoro que provavelmente não vai acontecer e vai lhe deixar muito frustrado, mas você supera, porque está no caminho certo. E então você parte para outra e segue os mesmos passos, de novo, e de novo, e de novo...
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Até a última gota (de água ou de paciência)
Há algum tempo se espalhou no Facebook um vídeo, encabeçado por atores globais, que convoca todos a se juntarem à campanha “Gota D’água” para impedir a construção da usina de Belo Monte.
Como resposta, estudantes da Unicamp elaboraram um outro vídeo, intitulado “Tempestade em Copo D'água?”
O discurso levantado por esses alunos, apesar expor o outro lado da moeda, é também tendencioso, aliás, como costuma ser todo discurso, afinal, a ideia ao se expor uma ideia é, normalmente, convencer o eleitorado.
Ok, o conceito do projeto Gota D'Água é falacioso e suspeito, mas este último também não convence por completo. É claro que não existe fonte totalmente limpa de energia, nem mesmo as tão aclamadas energia eólica ou solar, e, no modo de vida que levamos hoje, a demanda por eletricidade é cada vez maior; mas a quem essa usina beneficiará? Para quem de fato vai todo o recurso elétrico gerado? Será o dinheiro público empregado em uma usina que atenderá ao país ou a interesses privados, como a produção energia para a obtenção do alumínio? Bom, mas isso parece certo, vai movimentar a economia, legal! É ótimo para o país, não é? Claro, usar o dinheiro público para fazer uma usina nacional que atenderá essencialmente a interesses privados é realmente muito justo.
E só porque uma quantia em dinheiro, muito maior do que o orçamento da obra em questão, é enfiada em nobres cuecas sem o menor pudor e o desmatamento da floresta pela construção de Belo Monte é pífio perto daqueles acarretados por outras práticas, a execução desse "belíssimo projeto" se justifica? Isso é quase mesmo que dizer que um político que rouba, mas faz, pode continuar no poder porque outros também roubam, entretanto, nada fazem! Ora, se o dever de um político é servir ao Estado e à Nação de forma íntegra e o nosso dever é justamente cobrar de nossos representantes essa conduta, é também dever de todos pensar na melhor solução, tanto econômica quanto ambiental, ao desenvolver qualquer projeto nacional, e não justificar um erro ao apontar para erros maiores.
Sobre as fontes alternativas de energia, é claro que seria insano pensar em usinas eólicas ou solares para sustentar a demanda energética de um país tão grande tanto econômica quanto territorialmente, mas poderia ser o caso de pensá-las como meio de produzir ao menos a energia que aquece nosso chuveiro, uma vez que o grande vilão nas campanhas ecológicas de economia elétrica é justamente o próprio.
Mas o Brasil é um país emergente, já é uma das economias mais fortes do mundo, integramos o G20, fazemos parte dos BRICS, precisamos de energia para crescer! Vamos então participar desse projeto que vai alavancar ainda mais o crescimento! Só se esqueceram de mencionar que todo esse lucro é sempre compartilhado entre o rei e os amigos do rei.
Coloquemos os fatos em pratos limpos, afirmar que Belo Monte é um belíssimo projeto é um tanto quanto exagerado; ele pode não ser o monstro de sete cabeças que pintam os ambientalistas, mas está longe de ser um panda fofinho. Se por um lado os atores da Globo estão exagerando e distorcendo os reais fatos, o discurso desses estudantes está um tanto quanto ufanista, eles estão praticamente nos convocando a integrar uma massa de "Policarpos Quaresma¹".
Brasil, esse é um país que vai pra frente! Enquanto isso, a população fica para trás. A eles, a Champagne; a nós, o guaraná Dolly.
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1. Referência à obra Triste Fim de Policarpo Quaresma, romance folhetinesco brasileiro pré-moderno, de autoria de Lima Barreto.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
À ética
tu quem tanto defendo?
Quem és o oposto de ti
tu que a mim à entidade metafísica
do sobrenatural equivale?
Tu, que em minha Carola resides
e não me abandonas
e estará ali para apontar-me o indicador
ao ver-me cair em tua ardilosa armadilha.
Que queres tu provar ao testar meus limites
e encontrar minhas falhas
e me ver negar tudo quanto sempre preguei?
Não aos céus, mas a mim e aos meus.
De ti sabes que não posso fugir
e queres não que eu apenas seja forte
mas que eu não tenha um calcanhar de Aquiles.
Saibas tu que não desistirei
em ti acredito e por ti enfrento
posto que tu insistes em mim desacreditar.
sábado, 15 de outubro de 2011
Ser Professor é ter amor, é ser ator
Há um tipo de profissional sem o qual não seria possível o aparecimento dos demais. Essa figura, essencial para a sociedade, é conhecida pelo nome de Professor. Sem Professor não haveria médicos, físicos ou matemáticos, não existiriam biólogos ou veterinários, sem Professor não existiriam sequer professores; nesse ponto chegamos a um paradoxo sobre o qual não pretendo iniciar uma discussão.
Mas não é fundamental a presença de um professor para aprender a ser malandro, conhecer a Lei de Gérson em todas as suas variações, bem como saber quando e como aplicá-la com maestria; para a arte de ser malandro o que não falta é mão de obra autodidata. Deve ser por isso que a beleza da profissão exercida pelos professores não é reconhecida em terras tupiniquins. Definitivamente, ser Professor é, acima de tudo, ter muito amor.
Ser Professor, o melhor professor, é, em sua máxima excelência, ser um artista, afinal, ensinar é uma arte, a arte de ser ator. É ser capaz de fazer o impossível para trazer ao plano físico as almas de uma turma de alunos matutinos que ainda encontram-se perdidas no reino de Morpheus e impedir que o pó de Sandman atinja os olhos daqueles alunos que batalharam o dia inteiro e sobreviveram para as aulas noturnas, quando a voz do professor parece um som distante vindo de algum plano etéreo. É iniciar uma batalha épica contra Chronos para fazer o conteúdo de uma vida caber em apenas cinquenta minutos.
Ser Professor é incorporar um personagem a cada dia, a cada aula. É passar pela porta da sala e deixar do lado de fora aquela briga com a mãe, com o pai, com a namorada, com o marido, com a filha, com o cachorro... é, por um período que reside entre o bater de um sinal e o soar de outro, esquecer que todos os problemas existem e conseguir sorrir para os alunos, conquistá-los a cada minuto e neles despertar a admiração pela figura que se articula em frente ao quadro negro.
A ausência do Professor, muito mais do que impedir a existência de outras belas profissões, impede a propagação de valores humanos. Sem Professor, não há educação, não há esperança, não há a possibilidade de qualquer mudança. A você, professor ou futuro professor, parabéns pela escolha, pela luta de cada dia, parabéns por não desistir, parabéns por todo esse amor.
Essa é uma singela homenagem aos meus professores do cursinho, ex professores da faculdade, amigos professores e futuros professores. A vocês, desejo um merecido Feliz dia dos Professores.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Se as horas fossem longas
Se as horas fossem longas, eu leria três livros por dia, pintaria as unhas seis vezes por semana e correria pelas manhãs. Se as horas fossem longas, eu me encantaria todo dia com o pôr do sol, apreciaria a noite e só dormiria quando o sono viesse. Se as horas fossem longas, eu esperaria. Se as horas fossem longas, eu não teria medo e andaria calmamente às tardes. Se as horas fossem longas, você não apareceria na incerteza do momento. Se as horas fossem longas, cada minuto não consumiria tudo e tanto que tento conter. Se as horas fossem longas, eu conteria. Se as horas fossem longas, esse texto não seria prosa, nasceria poesia.