domingo, 19 de junho de 2016

Poesia de prosa

Eu preciso de um poema
de uma flor
de um dilema
de uma dor
que algum dia
leu nas veias abertas
na prosa da poesia
de palavras não ditas
dentro do dilema
daquela dor
do seu poema
da minha flor.

terça-feira, 8 de março de 2016

Ser mulher


Ser mulher é ser guerreira. 
É ter vocação para ser mãe, e também para não ser. 
Ser mulher é ser esposa, é ser namorada.
É ser solteira, separada, divorciada.
É ser dona de casa por habilidade, ou apenas por obrigação.
É ser profissional.
É também não ser dona de casa. 
Ser mulher é ser o que ela quiser. 
Ser mulher é lutar pela liberdade de ser por si, sem estereótipos.
Hoje, e sempre, presenteiem-nos com respeito. 
Depois podem vir as flores e os chocolates, a gente fica feliz e agradece.
Feliz dia internacional da mulher!

quarta-feira, 2 de março de 2016

Quando ele vem chegando, envolvendo-te num abraço frio, melancólico e aconchegante

E, de repente, antes de chegar, ele já começa a mostrar a cara. O dia amanhece com vento, com chuva. Aquela chuva que se arrasta pelo dia inteiro. Alguns se confundem e logo se afobam, empolgados, achando que o frio de Winterfell finalmente se aproxima: "Ele chegou! Preparem-se, casacos e cachecóis!". Outros, deprimidos, já se sentem a falta do sol, do céu azul, do calor, daquela temperatura que ensopa o corpo de suor. Ele costuma aparecer pela manhã, de mansinho, desencorajando-te a sair da cama mas encorajando a tirar aquela bota do armário, a vestir aquela camisa de manga comprida, a pegar um lenço ou um scarf e envolvê-lo em seu pescoço. Aquele céu amanhece cinza e a chuva fina que insiste em cair ininterruptamente, como uma cena de enterro nos grandes filmes, leva-nos à melancolia, ou a introspecção, ou aos dois, ou à paz. Obriga-te ao guarda chuva, convida ao café, ou ao chá, ou a qualquer bebida confortavelmente quente. E, de repente, no meio do dia, ele resolve se esconder, ou dar uma volta e esquecer a que veio. Aquela manga comprida e o scarf perdem todo o sentido, e te incomodam profundamente. Mas ele volta no fim da tarde, no início da noite, e te abraça, envolve-te lentamente, traz mais um café, um chá ou um chocolate quente, e susurra bem baixinho: "Me aguarde, estou chegando bem juntinho. Outono."

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Pessoas que moram no meu celular

Existem pessoas que moram dentro de uma tela. 

Tenho amigos e conhecidos que moram dentro do meu celular, visitam meu tablet e viajam de vez em quando para o meu computador. 

Alguns, que moravam no plano físico, mudaram-se permanentemente para o mundo das telas, outros moram tanto no físico quanto no virtual, e muitos sempre estiveram lá desde que os conheci, alguns vieram para o mundo palpável uma vez na minha vida, depois nunca mais. Outros aparecem esporadicamente onde podemos compartilhar um café, um chá ou uma cerveja. 

Poucos vivem comigo mais fora do meu celular do que dentro dele, compartilhando os momentos mais importantes da minha vida. Alguns começaram vivendo dentro, depois vieram pra fora, outros começaram fora, e foram pra dentro.

A questão é que todos moram no meu celular. Muitos moram exclusivamente nele e provavelmente nunca pularão para fora dele, mas continuarão lá; pessoas com quem não compartilho um espaço físico, apenas ideias num espaço virtual, um complexo punhado de zeros e uns. 

É um mundo de relações paralelas que ora se interligam, ora nunca se cruzam, mas sempre acontecem.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Por que eu preciso de um dia da consciência negra?

O dia da consciência negra foi há quatro dias e, durante esse tempo, diante de tantos comentários ignorantes acerca desta data, fiquei refletindo sobre o porquê de eu precisar dela. 

Eu preciso de um dia da consciência negra porque eu sou branca, porque sempre me disseram que meu cabelo era bom e porque cresci acreditando que cabelo crespo era cabelo ruim. Porque eu usava termo "gente bonita", e ele englobava pessoas brancas, loiras, olhos azuis, verdes, de cabelo "bom", raramente, ou nunca, negros de cabelo "ruim", com aquela "cara de pobre". Eu preciso de um dia da consciência negra porque eu nunca me considerei racista, era apenas gosto pessoal, e isso não era preconceito. Eu preciso de um dia da consciência negra porque eu nunca havia percebido que a sociedade não nos ensinou a achar o negro bonito como nos ensinou a idolatrar o padrão europeu. Eu preciso de um dia da consciência negra porque nunca senti na minha pele a dor de ser julgada pela cor dela, porque nunca fui barrada em nenhum lugar por ser negra, e porque nunca me chamaram de macaca. Eu preciso de um dia da consciência negra porque, quando ele foi criado, eu achei desnecessário: "dia da consciência negra é algo preconceituoso, se queremos igualdade deveríamos ter um dia da consciência humana", mas eu bem que gostava do feriado e ignorava quem foi Zumbi dos Palmares. 

Eu preciso de um dia da consciência negra porque não fossem os movimentos sociais de emancipação e visibilidade do negro que deram origem a esta data, eu jamais enxergaria o quão racista eu fui, e o quanto todos nós precisamos entender que a igualdade social entre negros e brancos nunca existiu, e que "um dia da consciência humana" nunca iria expor o racismo que existe em todos nós. 

Precisamos todos de um dia da consciência negra. Precisam desta data principalmente aqueles que a repudiam. O Dia da Consciência Negra poderá, quem sabe, deixar de ser necessário no dia em que todos tiverem entendido e aceitado que ele sempre precisou existir.