segunda-feira, 24 de abril de 2017

Diálogos do Trem - Uma compilação (parte 2)

Pensar política é coisa de humanas

- Eu sou de exatas véi... Então esse negócio de política pra mim pfff
- É, vai nessa!
- Ah, humanas é muito difícil, tem que pensar demais, refletir muito, exatas não, exatas é só lógica, bem mais fácil.
- É, vai nessa, quando a política começa influenciar na sua vida, no seu salário, ou você acha que vai ganhar 30 mil e tudo vai ficar bem.
- Ah, se eu começar a perder dinheiro, a ficar sem emprego, aí eu começo a pensar.
- Bora logo, fora Cunha!

18/03/2016
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Contra o golpe? Tô dentro.

- Cê viu? Os manifestantes foram tirados da paulista com jatos dágua.
- A polícia?
- É. E acho que Lula tava indo pra Paulista hoje, sei lá fazer o quê.
- Teve manifestação hoje.
- AFF de novo??
- Não, essa é outra, a favor.
- A favor do Governo? AFF eu devia estar lá então!!... AFF deixa eu falar baixo aqui, abafa... Antes que eu apanhe. Deu bastante gente?
- Parece que 4 quarteirões, bastante, mas não tanto quanto a outra...
- Que droga.

19/03/2016
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Sorteia pra ver quem merece seu dinheiro!

- Não sei qual que eu pago dia 29, o Itaú ou o Santander. E mesmo assim não da nem pra pagar o total.
- Paga um pouco cada um.
- Não. To fudido, véi, to fudido.

19/10/2016
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Alergia? Só ao natural

- eu só tenho alergia ao molho de tomate caseiro
- como assim?
- sabe o molho de tomate feito em casa? Eu tenho alergia.
- Caraca, ao industrial não?
- Não, só o caseiro. Quer dizer, não ao tomate, mas a algum ingrediente. Mas como eu não sei qual é, tenho alergia ao molho de tomate.

21/05/2016
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Doce ilusão, mãe.

- Oi Márcia!
- Oi, querida! Tudo bem?
- Tudo, e a filha, como vai?
- A Karina vai bem, ela termina a faculdade esse ano, graças a deus. Aí ano que vem ela já começa a trabalhar na área dela e me livro pouco.

15/09/2016
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As muié que não cozinha

- Antigamente, não tinha geladeira, essas coisa.
- Tinha não.
- A comida era feita ali, na hora. Fez, comeu, cabô. Tinha que fazer todo dia. A comida ficava pronta ali no fogão à lenha, arroz, feijãozinho, toucinho...
- Hmmn
- Hoje em dia esse povo não quer mais saber de trabaiá não, tudo preguiçoso. Cozinha uma vez depois fica a semana toda comendo a mesma comida congelada. Gosto disso não, cozinho todo dia. Meus minino vão sofrê se casá com umas muié que não quer saber de cozinhar, porque eles come todo dia meu feijãozinho fresquinho.

14/10/2016
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Os grandão robalhero

"Mas falta água é nas nossas tornera, nas dos grandão robalhero não falta não. Vê lá se falta água pra eles. Né?"

16/10/2016

terça-feira, 28 de março de 2017

Diálogos do Trem - Uma compilação (Parte 1)

Acordar

- Que merda, parece um pesadelo quando o celular desperta.
- pesadelo?
- é, uma não consigo acreditar quando ele toca. Que merda quando o celular desperta, que merda meu! Não acredito que já é hora de levantar. É assim que eu acordo, acredita?
- muito ruim mesmo.
- não consigo nem abrir o olho. Vou pro banheiro com o celular na mão e volto pra dormir mais dez minutos.
- sério que você não abre o olho?
- sim, vou tateando tudo. Já falei pro meu marido, da próxima vez não quero nenhuma tomada perto da cama.

27/10/2016
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Desculpa pra quê?

"Desculpa? Que desculpa uma ova! Depois que inventaram essa tal de desculpa todo mundo pede desculpa e acha que tá resolvido. Taco logo essa merda na parede."

20/09/2016
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A Bíblia é feminista

- Quando que Jesus fez mulher ser submissa a ele? Tá na Bíblia que ele fez Maria, ou a Madalena, servir pra ele lá na mesa? Pelo contrário, todo mundo junto, tudo igual. Por isso que não gosto de debater com crente, não entendem nada. E quando ele fala homem, é o ser que que tá vivo. Não é o homem. Homem tem coração, mulher também, é tudo igual.
- Eu não leio a Bíblia, se eu lesse eu ia entender mais.

12/08/2016
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Amarração do Amor

Ela veio e me disse logo que me separei: "se você me trouxer uma camisa dele..." Olha pra minha cara, mulher, cê acha que eu vou querer ter homem por causa de amarração? A Dita tinha feito trabalho pro homem dela, e eles não estão juntos, não.

29/07/2016
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Presa ao preso

Esse povo fica criticando a minha sobrinha porque ela vai visitar o marido na cadeia. Eu falo pra eles "ele não traiu ela, ele roubou", cada um cada um, ué, coisa de ser humano, cada um tem seus problemas, todo mundo erra, ele pelo menos tá lá pra pagar o erro dele. Quem samo nois pra ficar julgando? Ela vai lá. Pelo menos ela tá com um valentão.

16/06/16
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Perfume do amor
- Eu vou no show
- Como se você não tem dinheiro?
- Eu faço nuns bico durante o dia e compro o ingresso de noite
- Vai comprar o meu e o seu, né?
- Sim, agora eu também tenho carteirinha de estudante, pago meia, só 60 conto, tá sussa.
- Tem carteirinha de estudante? Fez como?
- É do SENAI.
- Ahhhh
- Ainda tenho que comprar meu fone e meu pedal.
- O fone eu posso te dar de dia dos namorados mas um modesto, né, quanto será que sai?
- Uns 20 ou 30 conto.
- Ah, então eu te dou no dia dos namorados. Eu quero um perfume.
- Ah tá, de 70 conto, né!
- Ah..não, uns 50... Quero um Calvin Klein.
- E você vai me dar um perfume também?
- Claro que não, você não precisa ficar cheiroso, quem vai te cheirar? A Silvinha vai te cheirar? A Ana??
- Então eu não posso me perfumar?
- Só pra mim!
- Mas é só pra você.
- Ah tá, só quando eu to perto né...

12/05/2016
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Espírito Natalino

- Mãe, a gente tem que descer na Barra Funda, né?
- É Matheus, cala a boca.

24/12/2015
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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O clichê sobre o mundo virtual

Há muito não vivemos apenas no mundo físico, não há como negar. Já é clichê lermos, ouvirmos ou fazermos diversas reflexões e discursos para discutir, reclamar, defender ou ponderar sobre a nossa vida virtual. Esse texto é apenas mais um deles. 

Algumas pessoas não ligam, vivem no mundo virtual e não estão nem aí, outras vivem apenas no virtual e nem se dão conta. Outras pessoas ponderam, tentam achar o equilíbrio, algumas rechaçam totalmente e abandonam de vez, ou sequer entram. Mas o ponto mais intrigante na revolta contra a vida online, a exposição nas redes sociais e a existência virtual, é quando começamos a reclamar disso tudo usando próprio Facebook como válvula de escape. 

Por que fazemos isso? Aí a gente entra naquela reflexão do equilíbrio, na clichê, porém necessária, conversa sobre equilíbrio. O equilíbrio de saber que as redes virtuais são parte dos avanços nas comunicações, e que o problema não está no mundo virtual, mas na forma como interagimos com ele. É o ponto de perceber que estamos presos na vida virtual até para reclamar dela, é quase como um alcoólatra ir ao bar para beber e se lamentar que o álcool não presta.

Para estabelecer um paralelo, basta lembrar que todo e qualquer avanço nas comunicações exige atenção, observação e reflexão. Não foi diferente com o telefone, que encurtou grandes distâncias mas distanciou as que já eram curtas. Não foi diferente com a televisão, que começou a nos mostrar o mundo, tirou a atenção da interação entre os convives de uma casa do centro de uma mesa para a frente de uma tela e começou a impedir que saíssemos por aí para ver o mundo com nossos próprios olhos. Não foi diferente com a popularização do celular que, com o SMS, tornou prática e rápida a comunicação do dia a dia, mas nos fez esquecer como é bom ouvir a expressão entonada na voz. Pra todos esses avanços sempre houve reflexão, ponderação, negação e aceitação. É diferente agora com tudo isso e muito mais reunido em um único aparelho à palma da nossa mão? Não, apenas é preciso um pouco mais de auto conhecimento e maturidade para lidar com a velocidade e o volume das informações e conexões que nos cercam e conhecer os limites para nos impedir de afundar nelas. 

Talvez seja muito difícil estabelecer esses limites para uma boa relação com nossas redes sociais. Um caminho pode ser a auto observação. Interagir, aproveitar tudo que há de bom no que essa tecnologia virtual pode nos oferecer: ver as fotos do filho acabou de nascer daquele amigo distante; trocar ideias com pessoas do outro lado do mundo; aproximar-se de outras culturas; estabelecer uma rede de contatos. Mas também perceber quando o mundo virtual nos suga, quando o volume de informações e ódio espalhado na rede nos perturba, o cansaço por não conseguir absorver tanta informação. E então, quando sentir vontade de usar a internet para dizer sobre o quão ruim é viver com ela, deixe-a de lado. Ou seja, desconecte-se de fato, seja por umas horas, alguns dias, ou semanas. Aprender a selecionar o que vemos ou ou que divulgamos de conteúdo informativo ou pessoal, perceber os limites, encontrar o caminho para não negar totalmente o mundo virtual - afinal, ele está ai e faz parte do mundo que conhecemos hoje - e para não nos perdermos dentro dele. 

A palavra chave, afinal, para todas as instâncias da vida, será sempre equilíbrio, e nem sempre é fácil encontrá-lo. 

E quem disse que a vida seria fácil?

domingo, 19 de junho de 2016

Poesia de prosa

Eu preciso de um poema
de uma flor
de um dilema
de uma dor
que algum dia
leu nas veias abertas
na prosa da poesia
de palavras não ditas
dentro do dilema
daquela dor
do seu poema
da minha flor.

terça-feira, 8 de março de 2016

Ser mulher


Ser mulher é ser guerreira. 
É ter vocação para ser mãe, e também para não ser. 
Ser mulher é ser esposa, é ser namorada.
É ser solteira, separada, divorciada.
É ser dona de casa por habilidade, ou apenas por obrigação.
É ser profissional.
É também não ser dona de casa. 
Ser mulher é ser o que ela quiser. 
Ser mulher é lutar pela liberdade de ser por si, sem estereótipos.
Hoje, e sempre, presenteiem-nos com respeito. 
Depois podem vir as flores e os chocolates, a gente fica feliz e agradece.
Feliz dia internacional da mulher!

quarta-feira, 2 de março de 2016

Quando ele vem chegando, envolvendo-te num abraço frio, melancólico e aconchegante

E, de repente, antes de chegar, ele já começa a mostrar a cara. O dia amanhece com vento, com chuva. Aquela chuva que se arrasta pelo dia inteiro. Alguns se confundem e logo se afobam, empolgados, achando que o frio de Winterfell finalmente se aproxima: "Ele chegou! Preparem-se, casacos e cachecóis!". Outros, deprimidos, já se sentem a falta do sol, do céu azul, do calor, daquela temperatura que ensopa o corpo de suor. Ele costuma aparecer pela manhã, de mansinho, desencorajando-te a sair da cama mas encorajando a tirar aquela bota do armário, a vestir aquela camisa de manga comprida, a pegar um lenço ou um scarf e envolvê-lo em seu pescoço. Aquele céu amanhece cinza e a chuva fina que insiste em cair ininterruptamente, como uma cena de enterro nos grandes filmes, leva-nos à melancolia, ou a introspecção, ou aos dois, ou à paz. Obriga-te ao guarda chuva, convida ao café, ou ao chá, ou a qualquer bebida confortavelmente quente. E, de repente, no meio do dia, ele resolve se esconder, ou dar uma volta e esquecer a que veio. Aquela manga comprida e o scarf perdem todo o sentido, e te incomodam profundamente. Mas ele volta no fim da tarde, no início da noite, e te abraça, envolve-te lentamente, traz mais um café, um chá ou um chocolate quente, e susurra bem baixinho: "Me aguarde, estou chegando bem juntinho. Outono."

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Pessoas que moram no meu celular

Existem pessoas que moram dentro de uma tela. 

Tenho amigos e conhecidos que moram dentro do meu celular, visitam meu tablet e viajam de vez em quando para o meu computador. 

Alguns, que moravam no plano físico, mudaram-se permanentemente para o mundo das telas, outros moram tanto no físico quanto no virtual, e muitos sempre estiveram lá desde que os conheci, alguns vieram para o mundo palpável uma vez na minha vida, depois nunca mais. Outros aparecem esporadicamente onde podemos compartilhar um café, um chá ou uma cerveja. 

Poucos vivem comigo mais fora do meu celular do que dentro dele, compartilhando os momentos mais importantes da minha vida. Alguns começaram vivendo dentro, depois vieram pra fora, outros começaram fora, e foram pra dentro.

A questão é que todos moram no meu celular. Muitos moram exclusivamente nele e provavelmente nunca pularão para fora dele, mas continuarão lá; pessoas com quem não compartilho um espaço físico, apenas ideias num espaço virtual, um complexo punhado de zeros e uns. 

É um mundo de relações paralelas que ora se interligam, ora nunca se cruzam, mas sempre acontecem.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Por que eu preciso de um dia da consciência negra?

O dia da consciência negra foi há quatro dias e, durante esse tempo, diante de tantos comentários ignorantes acerca desta data, fiquei refletindo sobre o porquê de eu precisar dela. 

Eu preciso de um dia da consciência negra porque eu sou branca, porque sempre me disseram que meu cabelo era bom e porque cresci acreditando que cabelo crespo era cabelo ruim. Porque eu usava termo "gente bonita", e ele englobava pessoas brancas, loiras, olhos azuis, verdes, de cabelo "bom", raramente, ou nunca, negros de cabelo "ruim", com aquela "cara de pobre". Eu preciso de um dia da consciência negra porque eu nunca me considerei racista, era apenas gosto pessoal, e isso não era preconceito. Eu preciso de um dia da consciência negra porque eu nunca havia percebido que a sociedade não nos ensinou a achar o negro bonito como nos ensinou a idolatrar o padrão europeu. Eu preciso de um dia da consciência negra porque nunca senti na minha pele a dor de ser julgada pela cor dela, porque nunca fui barrada em nenhum lugar por ser negra, e porque nunca me chamaram de macaca. Eu preciso de um dia da consciência negra porque, quando ele foi criado, eu achei desnecessário: "dia da consciência negra é algo preconceituoso, se queremos igualdade deveríamos ter um dia da consciência humana", mas eu bem que gostava do feriado e ignorava quem foi Zumbi dos Palmares. 

Eu preciso de um dia da consciência negra porque não fossem os movimentos sociais de emancipação e visibilidade do negro que deram origem a esta data, eu jamais enxergaria o quão racista eu fui, e o quanto todos nós precisamos entender que a igualdade social entre negros e brancos nunca existiu, e que "um dia da consciência humana" nunca iria expor o racismo que existe em todos nós. 

Precisamos todos de um dia da consciência negra. Precisam desta data principalmente aqueles que a repudiam. O Dia da Consciência Negra poderá, quem sabe, deixar de ser necessário no dia em que todos tiverem entendido e aceitado que ele sempre precisou existir.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Museu da Tristeza

Eu gostaria de ver toda a dor do mundo em um museu, porque ninguém sabe o que é felicidade sem antes conhecer a tristeza, e vice versa. Tristeza é necessária, mas ninguém gosta de ficar triste, ainda mais porque a tristeza normalmente vem sem hora marcada, inconveniente, carregada de dor. Se gostássemos de tristeza, afinal, ficaríamos felizes com ela.

Se ela estivesse apenas em um museu, exposta em todas as suas formas, cores e odores, poderíamos visitá-la e sentí-la na hora em que bem entendêssemos e assim conhecê-la ou lembrá-la. Quando a felicidade já começasse a perder o seu significado, bastaria entrar no museu para sentir a tristeza e perceber como é bom ser feliz. 

E em cada corredor, carregado de mágoa e de dor, lembraríamos de tudo o que nos causa doenças e cânceres, as lágrimas nos escorreriam pelo rosto, o peito ficaria apertado e, ao sairmos de lá de dentro, tudo ficaria para trás, e sentiríamos o alívio e a renovação de uma vida repleta de novas alegrias. E neste museu haveria a sala do que jamais poderia ser vivido ou sentido outra vez, apenas para nos lembrar do que não pode acontecer novamente. Nela estaria toda a pobreza e miséria humana, física e de espírito, todo o ódio desmedido, fossilizados para todo o sempre. 

Um belo museu, para todo tipo de dor, de tristeza, de angústia e de sofrimento. Meu museu, seu museu, nosso museu. O museu de todos nós. E como ele não ainda existe, não sejamos então milhões de museus, acumulando tristeza e sofrimento. Que não cristalizemos a tristeza, que não fossilizemos dentro de nós a miséria humana, tampouco o ódio. Que a tristeza, necessária, possa sempre ser transmutada em mim, nos meus, e em toda alma sofredora. Que cada sofrimento vá para fora de nós, para dentro do nosso futuro Museu da Tristeza.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Ao meu mais improvável amigo

De todos os meus amigos, tu és o mais improvável e inusitado. Improvável, e não impossível, és meu amigo de tão longe e ao mesmo tempo mais perto do que eu poderia um dia imaginar. De poucas palavras, as mais belas palavras eu já conhecia antes mesmo de te encontrar. E quando a vida é dura e o coração aperta, nestas palavras, cantadas, escritas ou faladas, sei que posso me apoiar, ainda que eu evite tanto incomodar; receio de estragar tão rara relação de confiança, amizade e fraternidade que, ao longo dos anos, construímos sem planejar, baseada na mais inesperada e imediata empatia.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sobre a tolerância e o respeito

Sempre que leio textos sobre tolerância, como acabei de fazer com um do Flávio Gikovate no Facebook, parece-me que sempre fica faltando deixar claro o que é exatamente tolerância e o que é respeito. Algumas vezes toleramos e respeitamos, muitas vezes respeitamos sem tolerar, muitas vezes toleramos sem respeitar e outras vezes não toleramos e nem respeitamos. Prega-se muito sobre ser tolerante, porque a intolerância é um mal a ser combatido com todas as forças. Não é bem assim, não dá para tudo tolerar. E se você diz “mas, peraí, ser tolerante não é ser idiota!”, já fica muito claro que, se você não tolera uma condição ou pessoa que te põe em uma situação ruim, você não é de todo tolerante. E nem deve ser.

Há uma linha tênue que separa a tolerância do respeito, você tolera aquele seu chefe que te humilha, porque você não pode perder o emprego; apenas teme a demissão, mas não tem o mínimo respeito por ele quando o xinga pelas costas. Se isso está moralmente correto ou não, entra aí a questão cristã da prática contínua do perdão, mas isso entra em outra discussão. Da mesma forma, podemos não tolerar as atitudes de uma pessoa e decidir nos afastar dela para não entrar em atrito e, dessa forma, não perder o respeito, tanto à pessoa quando a si mesmo.

Podemos não tolerar muitas coisas. O criminoso, por exemplo. Suas atitudes devem ser repreendidas, respondidas e pagas perante a justiça, mas sem nunca deixar de respeitar sua condição de ser humano, ainda que ele não tenha tido qualquer tipo de respeito pelas suas vítimas. Do contrário, seria apenas vingança por vingança sem visar qualquer melhoria, seja para o indivíduo, seja para a sociedade, afinal, não queremos de volta para a sociedade um indivíduo ainda pior. Nesse caso, há (ou deveria haver) o respeito, mas não a tolerância. Respeito não talvez à sua pessoa, mas às leis e à condição de ser humano em que todos nós estamos, sem que seja tolerada qualquer ação criminosa.

E existem muitas coisas e atitudes que não devem ser toleradas e tampouco respeitadas: o racismo, a homofobia, o machismo, a discriminação de qualquer espécie, o ódio deliberado, a exclusão e a marginalização social. Sem sombra de dúvidas, a opção sexual (que compete única e exclusivamente a cada indivíduo), as diferenças sociais, raciais e de crenças merecem e devem sempre ser respeitadas, e não apenas toleradas na sociedade. 

Entre o respeito e a tolerância está o bom senso, e este, acima desses dois, parece que é o que mais falta entre nós.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Fotografia: acesso e banalização

Antes da fotografia, existia a pintura, a qual se viu indignada com a nova forma de retrato. Antigamente, as câmeras usavam filmes, não sensores digitais. Antigamente levávamos dias para ver uma foto revelada. Depois da revelação feita em uma hora, a ansiedade diminuía, e com as polaróides, nossa! Foto instantânea. Era o máximo do máximo. Com as câmeras digitais as imagens passaram a ser imediatas, com os celulares, passaram a ser online. Evolução acontece em qualquer área humana e a sua negação também. Com a imagem não é diferente.

Não dá para negar: O fato de não se ter que pagar pelo filme ou pela revelação popularizou a fotografia. Cada tempo tem a sua marca, nosso tempo vive as suas; e vida online expressa em fotografias, é uma delas. Se as fotos publicadas são enganosas, mentirosas para exibir uma falsa felicidade, muitos dos antigos álbuns de família também foram montados com base nas aparências, apenas não eram online. As selfies não são uma novidade, é um novo nome para algo que sempre existiu, só não tinha tantas facilidades de recurso, tais como celulares com câmera conectados à internet, câmeras frontais, pau-de-selfie e redes sociais.

Não adianta reclamar da tecnologia ou esbravejar o seu "mau uso". Isso sempre aconteceu. O celular não substituiu a câmera porque quem fotografa pela arte continuará fazendo. E não dá para negar que a imagem dos celulares de hoje em dia são melhores que as das antigas câmeras compactas de rebobinamento manual, a qual muitos dos que atualmente reclamam da "banalização da fotografia" usavam, e faziam fotos péssimas, não por culpa da câmera. 

O problema não é a câmera frontal, o pau de selfie, os celulares, ou a internet. Cada um sabe (ou não) como e quando usar esses recursos, o problema é justamente não saber lidar com isso. Não dá pra condenar o avanço na fotografia, ainda que, em certos aspectos, tenha sido "banalizada", porque, graças a esses avanços e popularização, qualquer um - qualquer um mesmo - de toda classe social, pode registrar seus eventos, nascimentos de filhos, festas de aniversário e até mesmo a sua vida na pobreza (por que não?); se essa realidade existe, deve ser mostrada. Se ela te incomoda, o problema é seu. 

Hoje a vida é online, característica de nosso tempo. Apenas temos que aprender a lidar com isso e a aceitar as mudanças que ocorrem ao longo da história.

Escrito em 10 de maio de 2015.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Mas é só um elogio!

Não, não é. Não na sociedade em que vivemos. 

"Ah, vá! Nada demais apenas abordar com educação para dar bom dia e dizer que é bonita." 

E aí eu me pergunto, com que intenção? Por que você precisa parar uma mulher na rua, apenas porque achou-a bonita/atraente, e dizer isso a ela? 

"Para de ser feminazi, eu hein! É só educação, é só um bom dia, e quem não gosta de receber elogios?"

Pode ser, um dia quem sabe talvez seja assim. Mas não hoje. Por quê? Bem, no dia em que eu ver um homem abordando outro homem na rua apenas para dar bom dia, ou um homem aceitar ser elogiado por outro homem sem que fique indignado com isso, eu vou acreditar que é pura educação. Mas esse dia ainda não chegou, está longe. 

"Mas eu não sou gay, caraio! Não viaja!"

E nem ela está à sua disposição apenas porque lhe agradou aos olhos. 

"Mas eu apenas elogiei, ela não é obrigada a fazer nada! E eu nem quero nada, é só um elogio."

De novo, com que intenção? 

"Apenas elogiar." 

Você aceitaria elogio vindo de qualquer pessoa? 

"De homem não, já disse que não sou gay." 

Mas você também não é obrigado a fazer nem aceitar nada em relação ao elogio do outro homem, e se você supostamente está no seu direito de "elogiar" a mulher que quiser, outro homem, gay ou não, também estaria no direito de elogiar quem quiser. 

"Quer dizer que agora não pode mais cantar, elogiar mulher nenhuma que vai ser considerado assédio?"

Sério? Na rua? Na RUA? Fora de contexto? Você não sabe mesmo como paquerar alguém? Você realmente quer paquerar alguém na rua, perturbar alguém que você não conhece, que está provavelmente com pressa, indo ou voltando do trabalho, pra faculdade... para dar uma cantada? Claro, porque se passa um cara num carro buzinando para mim, me dizendo o quanto sou linda ou gostosa, vou sair correndo atrás do carro para dizer que quero conversar e dar meu telefone (só que não, antes que não entendam a ironia). Sério MESMO que você quer continuar com esse questionamento infeliz? 

"Mas..."

Não tem mas, socialmente acha-se normal elogiar ou falar qualquer asneira para mulheres nas ruas, porque afinal homem que é homem faz isso. Ocorre que, se existem mulheres que gostam, existem inúmeras mulheres que não gostam. Não fique tentando a sorte para encontrar as mulheres do primeiro caso, porque você desrespeitará MUITAS do segundo. Então simplesmente PARE de abordar e incomodar mulheres nas ruas, seja com a melhor ou a pior das intenções.  Quando bom dias e elogios forem realmente aceitos como educação em todas as situações, aí a gente pode começar a conversar. Por enquanto, chega de fiu-fiu. Simples assim.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A bolha cor-de-rosa

Certa vez li por aí sobre a bolha ideológica que o Facebook cria para seus usuários, limitando as publicações  ao mostrar em suas linhas do tempo apenas conteúdo referente às suas próprias opiniões, dificultando assim a interação e troca de informações sob diferentes pontos de vista.  E eu passei a  a criar a minha própria bolha. Intolerância? Não me importo, de fato, que assim me julguem. Desde que a rede social começou a fazer que as pessoas se esquecessem que as regras do convívio social deveriam valer também  no mundo virtual e que, assim como antes de falar é preciso pensar, antes de escrever, postar ou compartilhar qualquer coisa, é também necessário ao menos um pouco de reflexão.

Para evitar então dor de estômago pelo ódio compartilhado na rede ou pela propagação de opiniões ignorantes - seja pela falta do hábito da leitura, da análise e da reflexão fora do senso comum, seja pela preguiça de pensar - resolvi ajudar o Facebook a construir a minha bolha cor-de-rosa ideológica, deixando de seguir e/ou restringindo os que compartilham de senso comum carregado de ignorância, preconceito e ódio, ainda que não tenham consciência disso. Assim vejo apenas postagens e comentários humanos, ou divertidos, ou úteis, ou tudo isso ao mesmo tempo, preservando o meu estômago e a minha saúde mental. 

Dessa forma, quando escrevo minhas opiniões ou compartilho ideias com as quais concordo, ou repudio, ou fico indignada, não é, de forma alguma, para convencer aqueles que não concordam comigo. É simplesmente para mostrar aos que estão na mesma sintonia que eles não estão sozinhos. Portanto, quando paro de seguir ou restrinjo o acesso de alguém às minhas postagens, não é nada pessoal, preferi apenas respeitar a pessoa e o seu direito de falar a merda que quiser, optando por não mais acompanhá-las, seja em suas postagens ou em comentários indesejados nas minhas. Que os outros criem a sua própria bolha de ódio, eu não quero fazer parte dela. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Procura-se Humanidade

Procura-se Humanidade, por trás das máscaras da rede, por trás do filtro da rede. Humanidade, por onde andas? Ódio, o que fizeste com ela? Sufocou-a? Trucidou-a? Tenho a procurado onde só te encontro, Ódio. Humanidade, apareça! Prove-se mais forte do que ele. Eu sei que atualmente ele tem ganhado força, tão fácil é o caminho por ele escoado. Humanidade, eu sei que estás escondida em muitos corações. Bata, grite, exploda para fora, expanda-se! Tire o Ódio de teu caminho. Ah, Ódio, tão infeliz tu és sem saber. Tão doente, tão intenso e tão frágil; tua explosão é dor, explosão de Humanidade é amor. Humanidade... se a vir, chame-na, ela é calorosa e está pronta para entrar em qualquer coração. Abra o seu!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Eu sempre quis ser eu

Eu sempre quis ser eu. Eu com o que tenho, eu com algo mais. Se alguém está viajando e eu sinto inveja, quero ser eu em outra viagem, jamais ser quem está viajando, naquela viagem. Se eu quero muito dinheiro, queria ser eu com um belo montante, e não ser aquele milionário, com aquele dinheiro, naquela vida. Outras pessoas têm outros amores, outros desejos, outras vontades, outros problemas. Eu quero o que é meu, o que desejo, tudo o que me faz ser eu.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Três palavras. Ou mais ou menos isso.

"Ele me disse eu te amo", ela me contou. E isso a deixara perturbada. "Eu nunca acredito quando alguém diz que me ama. Fico pensando que a pessoa estava bêbada, ou que falou da boca pra fora". Sobre o que ela respondeu a essa declaração, ela me disse: "respondi que também o amava, mas foi estranho, eu não gosto de dizer". Indaguei se ela não o amava, e ela dissera que sim, que o amava, mas que não queria dizer, porque era estranho, "nunca acredito que é sincero, e não me sinto à vontade para falar".

Eu te amo. Três palavras tão básicas e tão fortes. Quantas pessoas não se arrependem por nunca terem dito?  Acho que ultimamente o amor tem assustado um pouco muitas pessoas, talvez por medo de sofrimento, ou pela dúvida, pela incerteza, ou por algum bloqueio, ou por não gostar dele(a), ou porque é muito mais fácil pegar sem se envolver, ainda que isso sempre acaba não funcionando muito bem para ao menos um dos dois lados, e muitas vezes alguém acaba saindo machucado da história. É como uma vez disse uma amiga "Se você não quer se envolver, relacione-se com uma planta".

E dizer eu te amo se tornou tanto banal quanto difícil, e acabo de descobrir que ouvir também; espanta-me saber que há quem não sinta prazer num sonoro eu te amo. É preciso muita maturidade emocional para reconhecer a verdadeira essência do amor por trás do eu te amo e também para encontrá-la mesmo quando nunca é dito, seja aos pais, aos filhos, aos amigos, aos namorados, às namoradas, aos maridos ou às esposas. Eu te amo. São apenas três palavras, ou mais ou menos isso.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Todo o ódio aos livros de colorir


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Haters gonna hate. A moda do livro de colorir, o sumiço do lápis de cor das prateleiras das lojas e fotos no instagram de páginas pintadas. Toda essa febre foi o suficiente para ativar o ódio dos haters de modinhas que aparecem na internet.

"Eu sou um artista, sempre pintei e desenhei desde criança, agora vem esses idiotas que sempre acharam que pintar é coisa de criança achar que são legais e descolados com esses livros idiotas." Ou então "compra livro e lápis de cor só para ficar se exibindo no instagram." E os mais exaltados "parece um bando de retardado! Não aguento mais ver flores!" Teve uma que até se achou engraçada comprando um livro só para fazer um suposto video tutorial de como pintar um livro, rabiscando as páginas com canetinha e mostrando que não aguenta mais essa modinha.

Gente, por que tanto ódio? Ainda não entendi essa implicância com febres de atividades temporárias, essa raiva despertada pelas fotos postadas no instagram e no facebook. E daí se é moda? E daí se pessoas que nunca ligaram para lápis de cor estão agora pintando? Tudo isso é porque você já pintava antes e agora está incomodado com a "concorrência"? Tá triste porque não tem mais um hobby exclusivo? Juro que não entendo essa necessidade de se diferenciar, ser único e fazer algo que ninguém faz. Tá insatisfeito? Muda de atividade, explore novas atividades e encare novos desafios e deixe em paz quem está feliz pintando florestas, flores e mandalas. Se você sempre pintou, tenho certeza que não serão iniciantes com lápis de cor e livros de colorir que vão te "desbancar".

O que eu vejo é uma febre saudável, com seus excessos ou não, com gente querendo apenas aparecer ou não, eu vejo gente feliz entrando numa onda colorida. E não precisa o mundo de mais cor? Um dia eu estava pintando meu livro numa sala de espera, e uma senhora me perguntou sobre ele, onde comprei e disse que ela queria pintar também. Outro dia a reencontrei e ela me mostrou fotos dos livros dela e das amigas dela, com quem ela estava pintando. Amigas que se reuniam para pintar juntas e conversar. Quer coisa melhor do que uma atividade descontraída em grupo? Eu vejo mães pintando junto com seus filhos, eu vejo pessoas duras se entregado ao prazer de ser criança. Eu vejo cor, eu vejo paz, eu vejo amor. Faça então um esforço: pare de odiar.

Que essa febre dure o tempo que durar, e, quando ela acabar, que tenha deixado no mundo pessoas com um pouco cor na vida. É disso, afinal, que o mundo precisa.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Diálogos do Trem - Relacionamentos

- Eu não vou ficar pedindo carinho pra você não.
- [...]
- Grosso, eu?
- [...]
- Ah tá, tá bom. Em que momento eu fui grosso?
- [...]
- Ah, tá. Claro.

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- É, no Natal eu preciso estar em Minas, fia.
- [...]
- Da um jeito na tua vidinha que eu preciso dar um jeito na minha, ou vou acabar matando aquele desgraçado.
- [...]
- Eu to ruim, to péssima... Falta pouco pra eu matar aquele desgraçado.
- [...]
- Eu já peguei quatro anos fia, mais dez anos vai ser fichinha, não aguento mais aquele coisa ruim.

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- Letícia, eu quero passar informações de conhecimento pra você... Se você não quer tudo bem!
- [...]
- Ah, mas Letícia, só porque eu tenho mulher eu não posso ir pra sua casa?
- [...]
- Letícia... Não, Letícia, me escuta, me escuta! Quando você me conheceu... Deixa eu falar, quando você me conheceu você me conheceu casado.
- [...]
- Você me conheceu casado, Letícia, eu não era solteiro, eu não sou solteiro, eu não tenho culpa se você não pode ir onde eu estou, porra, se toca, cara!
-[...]
- Não, Letícia, eu não desliguei na sua cara, eu tava no meu quarto colocando meu filho pra dormir... Contando uma historia pra ele.
- [...]
- Não, Lê, eu não desliguei na sua cara! A ligação caiu! Sua filha da puta! Vou dar uma porrada na sua cara! Se eu tivesse aí você tomava logo umas duas bolachas pra você aprender.
- [...]
- Não, Letícia, não! Poxa, me ouve... foi até minha mulher que foi me avisar que o telefone tava tocando, a ligação caiu mesmo...
- [...]
- Mas que diacho de amor é esse que você diz que sente por mim? Que amor é esse você não é nem capaz de me entender?
- [...]
- Você não é a outra Letícia, você sabe que não é, você nunca foi nem nunca vai ser pra mim a outra, essa palavra não existe no meu vocabulário, você sabe disso, Lê, você sabe que eu te amo!
- [...]
- Eu amo você, você sabe disso, eu amo a nossa princesinha, demais....
- [...]
- É claro que eu vou no aniversário dela, Letícia...
- [...]
- Não Letícia, não... E mulher não nasceu para ser compreendida, nasceu para ser amada, e você sabe que te amo, e ainda assim eu compreendo você, eu te entendo, e te respeito.
- [...]
- Não, Lê, eu não tenho outra, você sabe que não, é apenas o meu jeito... Não não, não é só quando eu quero que a gente se fala, é só quando dá tempo, olha, não estamos falando agora?
- [...]
- Não, Letícia, não... Não! Olha, você sabe disso... Letícia, Letícia! ....

... Desligou... Puta que pariu, plena segunda feira e essa mulher faz isso...

[Tenta ligar de volta inúmeras vezes, e então ela finalmente atende]

- Alô, oi, oi, tá me ouvindo? Tá mais calma agora?
- [...]
- Eu sei que você não está nervosa, é, eu sei, você estava só desabafando, é, eu sei, eu entendo...

[E assim, descendo do trem, continua...]

segunda-feira, 23 de março de 2015

E o presente?

E o medo?
Existe.
E a insegurança?
Também.
E o incerto?
É o futuro.
E o certo?
Não sei.
E o desejo?
Presente.
E a saudade?
Também.
E o futuro?
Incerto.
E os planos?
Futuros.
E o presente?
Em curso.

terça-feira, 17 de março de 2015

Inegavelmente Bentinho

Ouve um dia em que acreditei que já não tinha mais a imaginação de Bentinho. Pobre de mim, que não percebi que a negação de um mal não o impede de existir ou acontecer. Uma leve brisa sempre deu a luz a incontáveis potrinhos. Negá-los não os fará sumir, nem deixarem de existir. Aprender a controlá-los: esta é a chave para o auto conhecimento e paz interior. Tenho um longo caminho pela frente...

segunda-feira, 16 de março de 2015

Amor...

Amor... amor é o que se sente, mesmo que sem palavras. Não há definição, nem medidor de intensidade, não existe hora pra surgir nem momento pra crescer. Amor é fraterno, é romântico, é o que se manifesta em risos, abraços, beijos, saudades e lágrimas. É sofrer mesmo sem querer, é rir, é chorar. Amor... amor é tudo aquilo que eu sinto quando penso em você.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A volta da pantera

Fazia tempo que eu não a via. Passou correndo na minha frente com a Lyra, gata de meus pais, na boca. A pantera negra havia saído de controle, mas, de alguma forma, eu ainda tinha poder sobre ela. Arranquei a gata, ainda viva e com ferimentos leves, de suas presas e a pantera não reagiu, apenas me olhou como se estivesse com rancor. Mandei-a para a casa de madeira que a abrigava e, quando dei-lhe as costas, não pude evitar que matasse uma gata branca e comesse o rabo do Bilbo, o gato adotado por meu amigo. Temi por Frida, a minha gatinha branca, nas ela estava a salvo se esfregando em minhas pernas. A gata devorada era uma gata de rua. A pantera sentia-se triste, mas ainda assim não podia sair comendo gatos por aí. Acariciei-lhe a nuca e acordei logo em seguida.

segunda-feira, 9 de março de 2015

O brilho eterno de uma mente sem lembranças

Eu já quis esquecer, exatamente como acontece no filme. Esquecer parece tornar tudo mais fácil: eliminar a dor e acabar de uma vez com o desconforto. Já desejei me livrar de lembranças ruins ou da dor de um coração partido mais de uma vez. Pesquisadores holandeses já descobriram um meio de apagar memórias especificas, traumáticas - através do que se pode grosseiramente chamar de eletrochoque - para auxiliar principalmente em tratamentos de depressão.

Fico imaginando se a coisa atinge a escala do inimaginável e alcança o nosso propósito de esquecer o que nos causa sofrimento. Ao sentirmos uma dor emocional muito forte, bastaria apagar a(s) lembrança(s) que a(s) causa(m). Haveria gente apagando vidas inteiras: a existência de alguém que morreu, anos de relacionamentos amorosos culminados em decepção ou frustração de um coração partido, acidentes traumáticos, experiências negativas que resultaram, de alguma forma, em algum aprendizado. E, de repente, os mesmos erros estariam sendo repetidos um atrás do outro por pessoas repletas de buracos existenciais. Sem a referência da dor, já nem saberíamos o que é felicidade.

Mas confesso, já quis mesmo esquecer. Apagar a memória por raiva ou apenas por não suportar o sofrimento que tira o sono, a fome, apaga as cores, elimina os aromas e os sabores. Ter memória seletiva seria útil em determinadas fases da vida. Que a felicidade não é uma constante e que ela é um meio e não o destino, já sabemos, duro mesmo é a contradição de desejar esquecer nossos sonhos mais doces, as memórias mais lindas e os momentos mais felizes em nome de apagar a tristeza que essas lembranças atualmente nos causa. Talvez seja apenas um paradoxo temporal, ou talvez precisemos delas para perceber que estamos vivos e que somos capazes de rir e de chorar com a mesma emoção e intensidade.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Teatro

Uso máscaras, maquiagens e figurinos incorporando-os ao meu dia a dia e interpretando com maestria o meu eu social. Monto-me pela manhã, represento uma personagem no decorrer das horas e sou capaz de convencer que ela sou eu; firme, inteira e forte. Mas é quando me desmonto sozinha, no silêncio da noite, que o rímel dos olhos de princesa se transforma na maquiagem do Alice Cooper.

A pantera

Eu estava deitada na rede próxima ao rio do quintal quando apareceu uma pantera negra. Ela tentava me atacar, mas, depois de dominá-la, tornei-me sua dona, embora ela pensasse o contrário. A única coisa chata é ter que trancá-la num quarto durante a minha ausência para que ela não comesse os gatos e o cachorro. Eu tentei mandá-la embora, deixá-la livre, mas a casa era grande, rústica e confortável, com uma cachoeira no quintal que caía sobre o rio que se estendia por longos metros além da vista, e a pantera passava horas estirada ali na margem sob o sol. Decidiu, portanto, que era mais cômodo instalar-se em minha humilde residência do que viver seu instinto caçador (ainda que ela resolvesse praticá-lo com os bichos da casa). E foi assim que ela entrou em minha vida.

Dispo-me

Dispo-me de minhas convicções, das minhas crenças, do meu orgulho, da minha dor e dos meus medos. Ignoro meus questionamentos ainda fervilhantes e aceito o desconhecido. Dispo-me.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Jogo da Vida

A crueldade de um jogo que não aprendi a jogar: quanto mais se dá, maiores as chances de perder aquilo que se quer ganhar.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Alegria da menina

Menina linda, que palavras não sabe falar, mas oferece a melhor forma de conversar. Um suspiro, um tété, uma lágrima, um dádá. Uma fungada, imitada. Dadá tétété risada e, enfim, um sorriso a se esboçar.